Game of Thrones – 6ª Temporada

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É quase unanimidade entre os espectadores da grandiosa Game of Thrones que esta temporada, a sexta, sagrou-se como a melhor de todas até então, e quem seria eu para discordar?

Foi pouco a pouco que o programa da HBO conquistou sua audiência – ainda lembro dos teasers que envolviam o corvo de três olhos e muita neve. Seu princípio foi interessante, contudo, moroso. A segunda temporada, que considero a mais fraca, elevou o conceito de lentidão ao levar seus personagens de algum lugar para lugar nenhum, tendo possuído poucos desdobramentos. Entretanto, depois que David Benioff e D.B. Weiss, os showrunners, desencanaram da problemática do seriado alcançar os livros e acresceram mais liberdade à narrativa, ela só fez aumentar e melhorar, culminando em seu ápice aqui, após estes dez episódios. É bem verdade que o quinto ano cometeu alguns deslizes em passagens importantes da trama, principalmente no que tange a efeitos visuais, coisa que em 2016, provavelmente dotados de um orçamento maior e menos arroubos, os produtores trataram de corrigir.

Então fomos do sutil e nebuloso The Red Woman, que marcou o retorno de um dos personagens mais queridos da atualidade, ao fatalista e racional The Winds of Winter, o season finale, mas não sem antes passar por diversos momentos que certamente ficarão na memória dos espectadores por muito tempo. O retorno de Bran Stark e sua visão temporal foram calcados em uma preparação meticulosa para a revelação sobre o passado de Snow, enquanto o próprio renascia do purgatório, para descer ao inferno e chegar a um céu invernal na sua trajetória de morte, ressurreição, conquista de seguidores e batalha final (a Batalha dos Bastardos) apoteótica e regozijante, após tantos anos de penúria. E se a trajetória de Jon era, assim como o inverno, mas crua e rígida, a de Daenerys Targaryen passou por um breve instante de repetição, que esperamos jamais volte a ocorrer para o bem do seriado, em que ela caiu para depois se reerguer, porém, em seguida, só ajudou a somar essa boa sensação que, provavelmente, pela primeira vez Game of Thrones executou sem ressalvas mortais de vitória e conquista por parte daqueles por quem sempre torcemos.

Do lirismo do resumo orgânico da série através de um espetáculo teatral, que tratou de reavivar as memórias dos mais esquecidos e que serviu de suporte ao que viria a seguir, a grandes batalhas, é fato que o filho preferido da HBO honrou os grandes marcos do gênero de fantasia medieval com primor técnico. Tudo era real, palpável. Mas mais que isto, os diretores deste ano foram muito mais atentos aos simbolismos dos planos, muitos sentidos nos dois episódios finais, como o nascer do sol tendo Sor Davos na contraluz, a visão em contra-plongée do Septo durante o julgamento de Loras ou os diversos plongée na Batalha dos Bastardos, e em alguns que até homenageavam clássicos como O Poderoso Chefão, na queda de Arya com as laranjas em uma escadaria, contrariando a expectativa de morte e subvertendo a ideia.

Até o elenco do show, que muitas vezes é engolido pelo primor da construção de seus personagens, sobressaiu-se como nunca antes. Se Emilia Clarke é sempre um tanto limitada – e sempre será -, Kit Harington evoluiu bastante desde sua primeira aparição e construiu um atormentado Jon Snow em expressões sutis, enquanto Sophie Turner enfim libertou-se da menina indefesa e mimada de outrora e mostrou o que o ódio e o orgulho podem fazer juntos, não baixando os olhos para outros homens que surgiram em seu caminho, mesmo que um destes fosse seu irmão. Mas é preciso falar de Kristian Nairn e seu Hodor, bem como do garoto que interpretou o grandalhão como criança, naquela que culminou como a mais impressionante e tétrica revelação do programa até agora, mostrando a habilidade do também criador de Westeros, George R. R. Martin. E claro, Iwan Rheon, que para quem conhece de outros trabalhos, foi do garoto bonitinho e risonho a uma criatura vilanesca que marcará sua carreira e já colocou seu nome no hall de personagens mais odiados de todos os tempos, de uma forma positiva, evidentemente.

E mesmo a morte, que tornou-se um clichê ao longo da série, e cujas expectativas para as suas chegadas já não impactavam tanto assim, foi tratada com mais esmero e menos repetição, acontecendo muitas vezes de maneira silenciosa, que o diga o herdeiro dos Lannisters, ou sem tanto dramalhão, como na explosão em Porto Real, que ceifou vários de uma só vez.

Ao fim, se não tivemos toda a tensão do nono capítulo, e era natural que isto não ocorresse, Game of Thrones posicionou sua peças no tabuleiro do grand finale e revelou os três lados que se digladiarão em seu desfecho. Foi um encerramento perfeito para aquilo que chamamos de calmaria antes da tempestade. Com tudo dando tão certo, fica só o receio de a série manter sua trilha narrativa e trazer para nós, pobres espectadores, ainda muito sofrimento até o fechar das cortinas. Mas é disto que trata o grande jogo, não?

Cinematrilha #02 – As muitas quedas

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Então veio “Queda”, um curta-metragem surgido da mente de Rodrigo Rigaud, que o filmou sozinho a partir de uma ideia sem roteiro, tendo o próprio como ator, cinegrafista e diretor do projeto. A mim ficou a incumbência apenas da montagem, que poderia ter sido bem melhor, penso hoje, assim como tudo no filme, que existiu para nos render aprendizado e para podermos dizer: fizemos um filme! Para nosso espanto, apesar de um desenrolar maçante, rendeu até boas críticas de amigos e colegas também críticos de cinema e, de certa forma, aquele ímpeto improvisado de Rigaud serviu para nos incentivar, habitantes do site Zona Crítica, a produzir mais, sem discutir e pensar tanto, onde o erro se tornaria uma possibilidade tal qual o acerto, mas era melhor que ficarmos parados.

E assim o Zona continuou sua história ao longo de três anos que, pensando em retrospecto, foram inesquecíveis. Muitos problemas, é verdade. Mas quantos também não foram os podcasts, os sonhos, as possibilidades, os vídeos toscos, as discussões que enalteceram e melhoraram personalidades e, sobretudo, os amigos que se formaram naquela estranha união?

O site Zona Crítica (e encho a boca de orgulho para falar dele) passou a ter cada vez mais acessos, chegando a beirar facilmente os cem mil mensais – o que para uma plataforma totalmente independente e feita “nas coxas”, era um luxo -, Artur Bezerra desenhou para nós uma logomarca que permanece até hoje, foram diversas as cabines de cinema e os encontros homéricos nelas, como aquela de O Homem de Aço, em que rimos adoidado durante a sessão graças às desgraças do filme… Veio o TV Zona, o Zona de Estreias, todo conteúdo que pode ser conferido no ainda existente canal do Youtube. Inclusive, foi aqui que ocorreu uma inesquecível semana na segunda vinda de Pablo Villaça a Recife para ministrar outro de seus cursos, pois todos os integrantes da página à época se juntaram para fazê-lo. Foi significativo passar cinco dias seguidos ao lado daqueles grandes amigos aprendendo sobre um tema que move as engrenagens da minha vida. E pessoalmente, atingi sucessos e objetivos após um longo esforço e meses de penúria e isolamento: conquistei não só minha vaga em um importante concurso público, como entrei no curso de Cinema e Audiovisual da UFPE.

Juntando estes três pilares, sentia-me realizado, ainda que não estivesse fazendo filmes propriamente ditos, e tudo corria bem, exceto por um minúsculo detalhe que sempre foi a sombra que perseguia o Zona. Jamais conseguimos, apesar de termos corrido atrás, um apoio financeiro, um patrocínio para o nosso querido site. Somando-se a este fato, os ilustres membros do mesmo, cada qual em sua esfera e de maneiras específicas, passaram a se ocupar em suas vidas privadas e, como não poderia deixar de ser, a página foi escasseando e morrendo. Até uma reunião definitiva chegar…

Nela, apesar de poucos protestos débeis, decidimos em um quase-uníssono, principalmente porque o servidor cobrava cada vez mais caro e achávamos que o custo-benefício não valia a pena, que encerraríamos o site. Não tardou para que dentro de algumas semanas, a Queda que estimulou uma alavancada construísse uma rima trágica entre o começo e o final e culminasse nesta queda maior, que foi o fim do Zona Crítica.

Em meados de 2015, o site saía do ar de vez…

Mas como toda boa história de trilhas e caminhadas, aquilo que à época parecia a nós um fim trágico e derradeiro, era só o começo de tudo. Do contrário, eu pareceria um tolo em criar uma coluna que teria apenas duas edições, não é mesmo?

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