Stranger Things – 1ª Temporada

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Muita gente está em polvorosa com a nova produção da Netflix, a série Stranger Things, e não à toa. Já faz um tempo que a nostalgia impera, principalmente no cinema, e tal movimento de releituras e reinvenções trouxe momentos maravilhosos e outros nem tanto. A avalanche de super-heróis, que não deixa de ser um revival dos quadrinhos que faziam sucesso à época, e fazem ainda mais agora, é um exemplo maravilhoso desse mosaico de erros e acertos, tendo como seu ápice Guardiões da Galáxia. Contudo, outras tentativas menos sucedidas até resgataram a sensação de revisitar o passado, como Super 8, de J. J. Abrams, mas foram infelizes em criar contexto e escopo, parando onde Stranger Things começa.

Digo isto, pois todos estão corretos em alardear todas as homenagens e arrepios provocados pelo seriado. Eles são certeiros e mais que bem-vindos. Conta Comigo, Os Goonies, E.T. – O Extraterrestre, Uma Noite Alucinante, O Enigma do Outro Mundo, tudo está presente, ora copiando elementos, ora recriando passagens inteiras. Temos a cabana atrás da residência, as luzes penduradas pela casa, que fazem alusão a Contatos Imediatos de Terceiro Grau, a figura do pai ausente e da mãe forte que sustenta a família, os trilhos de trem com o grupo de garotos caminhando por ele, a menina com poderes à Carrie – A Estranha e um sem-fim de instantes que remetem diretamente às aventuras infanto-juvenis dos anos oitenta.

Entretanto, Stranger Things não se resume às honrarias dos melhores trabalhos de diretores e escritores famosos, como Spielberg, Carpenter, Zemeckis e Lovecraft. O show tem uma história a narrar e vai além quando se trata de recriar os universos fantásticos do período. Sabe aquele temor que o velho Stevão tem de mostrar armas, perigos reais e outros em seus filmes, que não só, mas principalmente envolvem crianças? Os irmãos Duffer entendem que o senso de realismo, para ser sentido, precisa por os pés no chão antes de buscar o onírico. Logo, adultos fumam livremente, o sexo sempre está presente de forma sugerida, a perda da inocência é representada de maneira sombria com a possível morte de um animal pelas mãos dos adolescentes e os adultos oferecem perigo palpável ao portarem armas sem qualquer questão ética que possa envolvê-los. Tudo isto só engrandece uma trama que se propõe a soar mais que nostálgica, mas também perigosa, tensa, beirando em muitos momentos alguns dos melhores terrores fantásticos já criados, afinal o medo das crianças não se resume a monstros em armários, mas também ao mundo esquisito e intocável dos adultos. Espectadores com mentes e corações mais sensíveis inclusive poderão facilmente se assustar aqui e acolá.

Grande parte do mérito de Stranger Things advém de seu elenco, muitos competentes, mas que não tinham tido o espaço apropriado até então, porém evidentemente bem direcionados. O trabalho de preparação e escolha de casting é talvez um dos mais excepcionais já visto na história recente dos seriados. E mesmo meros coadjuvantes soam críveis e intensos.

Com o auxílio de um roteiro refinado, de Winona Ryder a David Harbour, não há figura que não possua ao menos um contorno de aprofundamento e psicologia. Contudo, certamente o foco é nos atores-mirins, já que em boa parte do tempo a câmera se posiciona na altura das crianças, mostrando que são eles os protagonistas deste conto. Gravem estes nomes: Finn Wolfhard, Millie Bobby Brown, Gaten Matarazzo, Caleb McLaughlin, Natalia Dyer e Charlie Heaton. É quase inacreditável como cada um destes meninos surge convincente. Não são poucas as obras cinematográficas e televisivas que pecam justamente em suas personas infantis, ao passo que Stranger Things concentra suas maiores forças interpretativas precisamente nesta faixa etária do elenco. E não são só emoções e sentimentos. O script muitas vezes pesa em situações e diálogos que mesmo muitos adultos não preparados teriam dificuldades em representar. E o destaque, evidentemente, é Millie Bobby Brown, a garotinha que poderia apostar em um ar caricatural, mas jamais chega perto do cartunesco. Não tem Sistema Stanislavski que justifique algo que só posso conceber como dom. Nos últimos episódios, a maneira como, de forma silenciosa, Bobby Brown encara um atendente de supermercado, medindo-o da cabeça aos pés, já é digno de indicações a prêmios.

Ao fim, fica claro que todos os easter eggs e homenagens ali presentes existem para extasiar os fãs da época, mas são apenas a cobertura do bolo. Ainda que você não tenha vivido o período oitentista, tampouco conheça seus maiores expoentes, sem dúvidas Stranger Things proverá ótimos momentos de imersão no horror fantástico, bebendo em muitas fontes, é certo, e mesmo assim original e empolgante em seu enredo de desdobramentos pessoais e passagens surreais o bastante para cativar uma nova geração, que cedo ou tarde lembrará da série com a mesma nostalgia que atualmente habitamos.

Game of Thrones – 6ª Temporada

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É quase unanimidade entre os espectadores da grandiosa Game of Thrones que esta temporada, a sexta, sagrou-se como a melhor de todas até então, e quem seria eu para discordar?

Foi pouco a pouco que o programa da HBO conquistou sua audiência – ainda lembro dos teasers que envolviam o corvo de três olhos e muita neve. Seu princípio foi interessante, contudo, moroso. A segunda temporada, que considero a mais fraca, elevou o conceito de lentidão ao levar seus personagens de algum lugar para lugar nenhum, tendo possuído poucos desdobramentos. Entretanto, depois que David Benioff e D.B. Weiss, os showrunners, desencanaram da problemática do seriado alcançar os livros e acresceram mais liberdade à narrativa, ela só fez aumentar e melhorar, culminando em seu ápice aqui, após estes dez episódios. É bem verdade que o quinto ano cometeu alguns deslizes em passagens importantes da trama, principalmente no que tange a efeitos visuais, coisa que em 2016, provavelmente dotados de um orçamento maior e menos arroubos, os produtores trataram de corrigir.

Então fomos do sutil e nebuloso The Red Woman, que marcou o retorno de um dos personagens mais queridos da atualidade, ao fatalista e racional The Winds of Winter, o season finale, mas não sem antes passar por diversos momentos que certamente ficarão na memória dos espectadores por muito tempo. O retorno de Bran Stark e sua visão temporal foram calcados em uma preparação meticulosa para a revelação sobre o passado de Snow, enquanto o próprio renascia do purgatório, para descer ao inferno e chegar a um céu invernal na sua trajetória de morte, ressurreição, conquista de seguidores e batalha final (a Batalha dos Bastardos) apoteótica e regozijante, após tantos anos de penúria. E se a trajetória de Jon era, assim como o inverno, mas crua e rígida, a de Daenerys Targaryen passou por um breve instante de repetição, que esperamos jamais volte a ocorrer para o bem do seriado, em que ela caiu para depois se reerguer, porém, em seguida, só ajudou a somar essa boa sensação que, provavelmente, pela primeira vez Game of Thrones executou sem ressalvas mortais de vitória e conquista por parte daqueles por quem sempre torcemos.

Do lirismo do resumo orgânico da série através de um espetáculo teatral, que tratou de reavivar as memórias dos mais esquecidos e que serviu de suporte ao que viria a seguir, a grandes batalhas, é fato que o filho preferido da HBO honrou os grandes marcos do gênero de fantasia medieval com primor técnico. Tudo era real, palpável. Mas mais que isto, os diretores deste ano foram muito mais atentos aos simbolismos dos planos, muitos sentidos nos dois episódios finais, como o nascer do sol tendo Sor Davos na contraluz, a visão em contra-plongée do Septo durante o julgamento de Loras ou os diversos plongée na Batalha dos Bastardos, e em alguns que até homenageavam clássicos como O Poderoso Chefão, na queda de Arya com as laranjas em uma escadaria, contrariando a expectativa de morte e subvertendo a ideia.

Até o elenco do show, que muitas vezes é engolido pelo primor da construção de seus personagens, sobressaiu-se como nunca antes. Se Emilia Clarke é sempre um tanto limitada – e sempre será -, Kit Harington evoluiu bastante desde sua primeira aparição e construiu um atormentado Jon Snow em expressões sutis, enquanto Sophie Turner enfim libertou-se da menina indefesa e mimada de outrora e mostrou o que o ódio e o orgulho podem fazer juntos, não baixando os olhos para outros homens que surgiram em seu caminho, mesmo que um destes fosse seu irmão. Mas é preciso falar de Kristian Nairn e seu Hodor, bem como do garoto que interpretou o grandalhão como criança, naquela que culminou como a mais impressionante e tétrica revelação do programa até agora, mostrando a habilidade do também criador de Westeros, George R. R. Martin. E claro, Iwan Rheon, que para quem conhece de outros trabalhos, foi do garoto bonitinho e risonho a uma criatura vilanesca que marcará sua carreira e já colocou seu nome no hall de personagens mais odiados de todos os tempos, de uma forma positiva, evidentemente.

E mesmo a morte, que tornou-se um clichê ao longo da série, e cujas expectativas para as suas chegadas já não impactavam tanto assim, foi tratada com mais esmero e menos repetição, acontecendo muitas vezes de maneira silenciosa, que o diga o herdeiro dos Lannisters, ou sem tanto dramalhão, como na explosão em Porto Real, que ceifou vários de uma só vez.

Ao fim, se não tivemos toda a tensão do nono capítulo, e era natural que isto não ocorresse, Game of Thrones posicionou sua peças no tabuleiro do grand finale e revelou os três lados que se digladiarão em seu desfecho. Foi um encerramento perfeito para aquilo que chamamos de calmaria antes da tempestade. Com tudo dando tão certo, fica só o receio de a série manter sua trilha narrativa e trazer para nós, pobres espectadores, ainda muito sofrimento até o fechar das cortinas. Mas é disto que trata o grande jogo, não?