Crítica | A Grande Beleza

Nota:

Contemplativa, a câmera de Paolo Sorrentino desfila por entre a beleza clássica e concreta da cidade de Roma. Os movimentos sutis, a iluminação inebriante e a fantástica trilha diegética são o prelúdio de uma obra de múltiplos olhares à arte, ao estupor cultural, desde os plenamente devotos aos que, buscando sucção de sentido em cada novo objeto, relevo, som, imagem, encontram no “não encontrar” o inexpressivo sentimento de frustração típica de nossas sociedades pós-modernas. Um choque. Uma grandíssima hecatombe de sentido humano, bela em todo o momento, mas, como uma droga que do prazer leva a morte, nos conduz à visão de nossa (in)existência pueril, insignificante e banal. Todos os sorrisos ou expressões de felicidade, nos cerca de 140 minutos de projeção, soam como estranhas sensações de falseamento, escapismo ilusório, fantástico e trágico. Quem são estes seres? O que eles estão fazendo? Enchendo-se de vazio? Mas, aparentemente, nada os enche. Fantasmagoricamente, estes personagens que surgem, e somem, simplesmente circulam. Circulam e circulam. Para quê? A estranheza pujante do viver destes indivíduos põe-se em oposição a tudo que, aparentemente, remete à beleza da convencional e conservadora arte, ao suspiro revigorante dos célebres italianos precedentes, aos ditos e costumes de outrora. Fazendo uso de uma montagem que determina elementos específicos a serem vistos, vezes pontualmente revistos, mas nunca repisados por um longo período de tempo em tela, Sorrentino problematiza a sociedade em seu mosaico de referências, críticas e assertivas pessoais. Um tiro de canhão lançado ao mundo a ser aplaudido pelos amantes da grande beleza da arte cinematográfica.

De todos, o “eles” ou “nós” do filme é o jornalista Jep Gambardella, incorporado magistralmente pelo ator Toni Servillo, que já havia trabalhado com o cineasta italiano em Il Divo e As Consequências do Amor. Desde a apresentação de seu personagem, passa a guiar os encontros, desencontros e reflexões traçadas na obra. O ar superior, repleto de conflitos inexplicáveis e inenarráveis, de postura miscelaneada entre frustração e altivez, aliado aos tradicionais trajes regularmente sociais, nos remete à construção moral e característica dos sujeitos dirimidos pelo maestro Federico Fellini. O olhar interior, cheio de putrefações veladas, de A Doce Vida, e a investigação sócio-ideológica de Oito e Meio inundam o trabalho de Sorrentino que, mesmo admitindo visualmente suas referências, não abre mão de imprimir seu ritmo, repleto de travellings, zooms in e out, primeiros planos fechadíssimos que nos lançam em seus personagens, para constatarmos, através de seus olhares, o bizarro, o belo, o belo no bizarro e o bizarro no belo. Sorrentino decide invadir o espaço onírico, o surreal, imageticamente enrubescido, e banhá-lo com uma beleza inocente inexplicavelmente não traduzida e que estaciona num declive sensorial de Jep, que se, muitos anos depois de seu último livro de algum sucesso, não mais conseguiu produzir arte é porque deixou de, ou perdeu a razão de, alcançar a beleza na grande beleza que o cerca. A cena em que assiste, inerte, a apresentação radical da personagem que expõe-se a extremos por seu fazer artístico, leva-o e leva-nos, a refletir no que há além do próprio ato realizado, que seria o mérito, a beleza, da obra, em paralelo à completa ausência de força ativa, vontade, de saber ou considerar o pano de fundo do simples feito.

Mas Sorrentino é um grande jogador. Na realidade, um arquiteto digno das grandes e belíssimas construções italianas. Molda e amálgama sua obra com um liame denso de quem conhece a sociedade de aparências em que vive. A frivolidade lúdica e artística, a mesma retratada por Fellini, aqui volta e explode como uma bomba de vibrações extra-sensoriais:

- “Sou uma artista, não preciso explicar nada.”          

- “Então eu vou escrever: vive de vibrações, mas não sabe o que são.”

E sob a alcunha do afiado texto, Sorrentino destila em tela perfeição técnica e formal. Os ambientes revelam pequenos e grandes detalhes da ricalhada italiana, desde os rebuscados sistemas de acesso à festas, à decoração das luxuosas casas, numa direção de arte que vai do esplêndido ao propositalmente caricato e pitoresco, na contínua crítica aos costumes da burguesia. Como uma verdadeira obra de arte, o cineasta constrói grafismos impressionantes, desde o plano que escolhe para mostrar um um jardim, a como filma um jogo de escadas. Em tela, o sentido vai muito além das pinturas ou esculturas expostas. Os figurinos revelam detalhes pontuais na constituição emocional dos personagens. O começo com preto, a passagem para o cinza, a soltura surrealista no vermelho, marrom, e enfim, o branco num propício encontro noturno. A gradação das cores ainda fica mais explícita após o contato, fantástico, real, de Jep com a mulher que encheu seu passado, vazio, de cor, de azul, amarelo, e desestabilizou até sua postura de Bom Vivant, nas situações corriqueiras.

A grande obra ainda nos faz viajar, como numa carruagem, na encantadora Itália dos séculos passados,  ainda viva, pela arte de reis e rainhas, representando dominação e preponderância que resvalam, porém, no encantador sorriso frouxo, e sem antagonismos, do personagem principal. Tendo trabalhado de forma tão precisa com Sean Penn em Aqui é o Meu Lugar, agora Sorrentino constrói camadas e mais camadas de um sujeito que, em seus mínimos gestos, mostra-se interessante e interessado. Olha a arte, olha a vida, disseca-a, por vezes não vendo nada lá. Deixa a visão infantil de realidade, mesmo sendo aconselhado pela sua chefe de redação, Dandina, na realidade uma das mais importantes e lúcidas personagens da trama, a não fazê-lo, já que é unicamente a partir desta que se desenrola o exercício poético. Jep tudo pode, mas o fato de tudo poder parece deixá-lo desgostoso de tudo, já que tudo parece não ter o tão grandioso sentido da beleza enxergada pelos completamente cegos.

Nos fazendo ver além da cor, arte, pele, A Grande Beleza propõe uma imersão subconsciente que pondere nossos dogmas, questione nossas convenções sociais e nos faça avaliar o que, realmente, é belo em nossa existência. Através de Jep e suas relações, extraímos, episódica e esporadicamente, nosso modo de enxergar a arte e as contradições que imprimimos à nossa própria vista, enquanto fatores externos cerram-nos ou escancaram-nos os olhos para a verdade. Para a grande beleza.

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"Amo Rosemary incondicionalmente. Ela e o bebê sempre me foram fiéis, nos momentos em que estive triste ou alegre, rico ou pobre, doente ou sadio. Minha comoção e espanto em vê-la abismada frente ao fruto de seu próprio ventre, fizeram-me olhar o cinema de outra forma, talvez com a mesma comoção e espanto de minha amada. Ah, Rosemary... Como amo tua canção de ninar. Violada, possuída, tragada, és a única a merecer estar aqui. Bem onde deposito o que sou."

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