Tese sobre um Homicídio

Nota:

Tese Sobre um Homicídio conta a história do advogado Roberto Bermudez (Ricardo Darín), que é um especialista em direito criminal e parte para um duelo investigativo quando se convence de que um de seus melhores alunos cometeu um assassinato brutal apenas para desafiá-lo.

Um filme chato, mas muito surpreendente, é uma forma justa de classificar o ‘suspense’. Qualquer espectador do Supercine da Globo terá, com esse filme, a inevitável sensação de déjà vu. Isso porque (a partir daqui eu deveria colocar aspas em todo o texto, e você saberá o porquê no final) ele repete formatos já desgastados para filmes de investigação, como a existência de um inimigo íntimo, o esforço individualista do investigador quase sempre ajudado por coincidências improváveis, intuição absurda, e os velhos flashbacks. Lá está também o coroa garanhão (à Zé Mayer) com sua mocinha em apuros (colocada em perigo pelo próprio protagonista sem nenhum motivo razoável)

Outro grande incômodo que surge diz respeito à direção de Hernán Goldfrid, ao ritmo maçante das sequências, dado o uso excessivo de planos contra-luz, e do close em objetos e nas expressões de Bermudez quando buscava dar incremento dramático em pontos da narrativa. Nada contra o uso desses recursos, mas a insistência dá sensação de monotonia, e deixa uma indicação de deficiência técnica ou mesmo de uma opção estética delirante da qual o espectador está completamente alheio, caso ele não tenha percebido.

Durante a gravação de nosso último Zonacast, o #7, Rick Monteiro falava pra mim em off sobre a dificuldade de se escrever a crítica de um filme “três estrelas”, que é aquele filme mediano, cuja avaliação está sempre cheia de muitos “mas”. É mais ou menos assim: “O roteiro é muito sagaz, MAS a direção peca…” ou “O elenco é competente, MAS a fotografia atrapalha…”. Aí fica chato para o leitor e para o crítico e o texto herda a mediocridade e a indecisão do próprio filme. A história da crítica de Tese Sobre um Homicídio segue essa linha: assisti ao filme, dois dias depois escrevi a crítica descendo o pau nele. Mas mesmo depois de realizada a minha obrigação, a trama não se desapartou das minhas elucubrações, algo estranho para um filme ao qual eu reservara apenas uma estrela… No terceiro dia, de tanta persistência, veio o insight (acho que meu cérebro é de pedra): não se tratava apenas de um suspense. Estive diante de um drama!

Eis que nem só de clichê viverá o homem, e agora vem a parte surpreendente do filme (!!). O cineasta não erigiu seu Zé Mayer porteño, em todas as suas peculiaridades, à toa. Vemos o soberbo advogado cair no ridículo em diversos momentos da trama. A proposta de Goldfrid era abordar o caos de uma personalidade vaidosa ao extremo, um tipo de homem que não consegue se desfazer da mensagem da secretária eletrônica que ainda anuncia o nome de sua ex-esposa como dona da casa, mas que no primeiro dia de aula do curso que ministraria afirma que o objetivo do certame para os alunos será aproveitar o privilégio de sua presença. Ou que ao ouvir uma formulação brilhante de seu aluno desfaz-se dela com uma piadinha frívola, mas se intriga ao ponto de enxergá-lo como um oponente.

E é exatamente a sua arrogância e seu complexo de protagonismo que o leva às situações vexatórias. Não dá para esconder que isso seja catártico, entretanto, para além: enxergamos a lucidez do tom do cineasta ao garantir verossimilhança ao seu personagem. Todo vaidoso, descontrolado, fatalmente cairá no ridículo, se não com os outros, em seu íntimo. O fato é que Goldfrid apostou alto – levantar um clichê para desconstruí-lo é uma jogada de risco. A questão é que a sensação de filme chato faz concluir que ele errou na medida, e a balança pendeu mais para o clichê monótono do que para o lado da brincadeira com um tipão que se vê muito pelas esquinas… E pelas novelas das oito.

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“Com um gosto cinematográfico nem sempre bem compreendido, me defino como um cinéfilo que valoriza a criatividade e a imaginação presente nas produções. Reconhecendo a técnica artística como fundamental, acredito que sua tarefa ainda seja contar uma boa história do melhor jeito possível.”

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