Crítica | O Tempo e O Vento

Nota:

“Nem só de pão viverá o homem.”

Eis que encontramos esse fragmento textual na bíblia cristã, no evangelho segundo Mateus, capítulo 4. Eu acho que se a sétima arte tivesse uma bíblia, com certeza em alguma parte dela leríamos o verso: “Nem só de boa fotografia viverá o cinema. Dantes é preciso uma montagem decente, um roteiro crível, boas atuações, sutileza na trilha sonora, dentre outros elementos”.

Jayme Monjardim recebeu em mãos um trabalho árduo: transformar a (enorme) obra de Érico Veríssimo em 120 minutos de película. São três volumes de livros que percorrem cerca de 150 anos da árvore genealógica dos Terra-Cambará, acompanhando minuciosamente o desenvolvimento de seus personagens e retratando com riqueza de detalhes a evolução dos panoramas histórico-sociais que viriam a eclodir na formação e consolidação do estado do Rio Grande do Sul. A história começa: com poucos minutos de filme somos apresentados à belíssimas imagens dos pampas gaúchos, com direito à pôr-do-sol alaranjado, iluminação em tons pastéis e uma sequência de estonteantes establishing shots. Os primeiros minutos também nos revelam certo apuro do diretor na composição de enquadramentos e nos seus sutis movimentos de câmera, fazendo bons usos de travellings e descrevendo pans e tilts com excelência, surpreendento, até, os céticos que esperavam de cara uma sucessão de planos típicos dos folhetins de TV aberta.

Mas é logo depois de completa a primeira meia hora de filme, que uma série de problemas começa a se tornar latente e remete-nos ao mesmo Jayme Monjardim responsável pelo desventurado Olga, de 2004. O primeiro é a pouca fluidez narrativa da projeção. O roteiro decide seguir por uma linha quase episódica, na qual conhecemos, antes de tudo, a história do nascimento de Pedro Missioneiro, seu crescimento, e o desastre que fez com que deixasse o lugar onde vivia. Isso tendo como muleta a narração em off de Bibiana Terra (Fernanda Montenegro), que já marcada pelo tempo, recebe a visita de seu grande amor, o Capitão Rodrigo (Thiago Lacerda), para o qual relata toda a história da extensa família, fazendo surgir assim o que vemos em tela. O problema é que quando tentamos explorar as angústias, o drama, ou as motivações de um personagem, percebemos que o seu tempo já se foi. Numa tentativa desnorteada de penetrar na grandeza da história do Veríssimo, em seus inúmeros personagens, encontramos um roteiro sem profundidade e que, ao invés de ousar no que há de épico nos acontecimentos retratados, descamba para os mais sofríveis dramas românticos e, no máximo, alguns poucos conflitos familiares.

Entre alterações na obra original, que já são comuns em adaptações, e manipulações para que o filme adquirisse um rumo ainda mais distante do que o registrado nas páginas gloriosas da história gaúcha, ainda encontramos cenas de completo mau gosto. Dentre estas, todas as protagonizadas por Cléo Pires. Ana Terra, em suas primeiras aparições, mais aparenta Bella, da saga Crepúsculo. Não fala quase nada, vive trocando olhares misteriosos, fazendo caras e bocas e acaba seduzindo o homem, antes desconhecido e perigoso. A primeira cena amorosa entre Ana Terra e Pedro Missioneiro é simplesmente uma das coisas mais nonsenses entregues pelo cinema nacional este ano. Junte isto à montagem burocrática que faz com que uma cena de amor preceda a passagem de cavalos e volte á cena de amor e preceda a cena de Ana sorrindo ao ouvir seu amado tocar flauta e volte a uma nova cena de amor, todas explorando o que, como atriz, Cléo Pires tem de melhor: o corpo, e fica latente que existe pouca racionalidade na montagem de O Tempo e o Vento. Basta ver – e sim, você verá – o excessivo uso de fade in/fade out da película. É angustiante ver cenas que duram 30 segundos e são, desnecessariamente, encerradas em um fade out. Isso vem reforçar, ainda mais, o caráter “série de TV (aberta brasileira)” da produção. Em vários momentos parece que seremos reconduzidos a um intervalo comercial no cinema.

Interessante, porém, algumas elipses utilizadas para denunciar a passagem do tempo, na trama. Elas acontecem quando a mudança de geração não ocorre oralmente, com a volta do flashback para os “dias atuais” da obra e um novo discurso da Fernanda Montenegro. O lavar da velha tesoura, que fez nascer tantos bebês da família, e a máquina de costura, foram os objetos mais usados para essas elipses. O que é interessante, pois ambos instrumentos remetem à “costura”, “corte”, coisas relativas a montagem, e este é justamente um dos pontos mais fracos do filme.

A revolução em si é muito mal retratada na fita. A única cena de guerra da obra dura 20 segundos e é uma das piores de todo o trabalho. Desordenada, completamente artificial, desde a (de novo ela) montagem à edição de som, passando pelos efeitos mal desenvolvidos e à trilha sonora completamente deslocada. Outra bola fora da obra, sua música, tenta à todo custo elevar a dramaticidade ou o caráter épico do que é visto em tela, em um esforço inútil de moldar as emoções do espectador, dada a falta de resposta da projeção. Isso também é conseqüência do escasso tempo para que os atores cosntruam a identidade e as emoções de seus personagens. Por mais que Marjorie Estiano chore no papel de Bibiana Terra jovem, e seja amparada pela sinfonia para que tenhamos a certeza, em um pleonasmo narrativo imenso, de que ela está triste, não conseguimos torcer por seu personagem, nem ao menos ter pena.

Do elenco, os que mais se sentem à vontade em seus papeis são Thiago Lacerda, amplo conhecedor da história do filme e íntimo de seu personagem, que acabou carregando parte de suas características na série de tv A Casa das Sete Mulheres, e na novela Terra Nostra, e Fernanda Montenegro, com sua sutileza comum e naturalidade na leitura de seu texto, mesmo que este, por vezes, não a seja tão favorável.

E visualmente o filme é belo. Jayme Monjardim foi um tremendo malandrinho e quis nos conquistar com paisagens. O eterno diretor que faz tv com cara de cinema e cinema com cara de tv, trouxe mais capricho ainda às suas imagens, aliou-se ao ótimo fotógrafo Affonso Beato e inundou a tela de laranja, marrom, verde e azul, ainda sendo muito competente na reconstrução de cenários como a estância de Maneco Terra e o povoado de Santa Fé, provando-nos que, além de ter investido bem e acertado na direção de arte, é um competente pintor de quadros e adora pôres-do-sol. Isto, porém, não o faz diretor de cinema. Sua indecisão narrativa, desconhecimento de como ou onde cortar suas cenas, falha na condução de seus personagens principais e perda de rumo em meio à grandiosidade da história a qual contava, mostram as limitações do diretor que, enfim, mostra-se um péssimo contador de histórias. E segundo Hitchcock, apenas um bom contador de histórias pode ser um bom cineasta. Alguém aí vai contrariar o velho Alfred?

O Tempo e o Vento é um filme bonito por fora e feio por dentro, que já vem pronto para ser exibido em janeiro próximo como a nova série especial da Rede Globo. Lá, na TV, é que atuações como as de Cléo Pires e Marjorie Estiano serão perdoadas, e quem sabe até engrandecidas. Sorte que estamos falando de cinema aqui, e como cinema, a obra é um fiasco. Prepare-se para ver uma média de sessenta fade outs e ter a impressão que eles são intermináveis. Até que, então, o filme termine. Em mais um fade out. E um novo pôr-do-sol.

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"Amo Rosemary incondicionalmente. Ela e o bebê sempre me foram fiéis, nos momentos em que estive triste ou alegre, rico ou pobre, doente ou sadio. Minha comoção e espanto em vê-la abismada frente ao fruto de seu próprio ventre, fizeram-me olhar o cinema de outra forma, talvez com a mesma comoção e espanto de minha amada. Ah, Rosemary... Como amo tua canção de ninar. Violada, possuída, tragada, és a única a merecer estar aqui. Bem onde deposito o que sou."

2 Readers Commented

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  1. Marcelo Almeida on 3 de outubro de 2013

    Uau… fortes as criticas. Mas, concordo plenamente, em janeiro estaremos vendo a Globo fazer uma mini-serie. Triste, triste…. Parabéns pela critica, mas se tivesse lido-a antes, não teria empolgação para ir ao cinema assitir e talvez esperasse a globo reproduzir. Mas, fui ao cinema e tive um bom divertimento….acho que isso foi o mais importante.

  2. Marli on 13 de outubro de 2013

    Não me surpreendo com a sua crítica,esse fiasco já era esperado por mim.Cléo Pires é péssima atriz,assim como a menos péssima Marjorie,Thiago Lacerda ficou bonito com o uniforme e só,paisagens e bonitas e nada mais,prefiro assistir a primeira versão feita pela Glória Pires e reler os livros.

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